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02 maio 2013

Daniel Bovolento: Pra sentir alguma coisa


Um por um. Todo dia. Apaga um novo e acende os olhos. Aspira o que sobrou pra jogar na cama quando for dormir. Em cacos ou em pó. Depois passa alguém e abre as cortinas pra arregalar os olhos de vez. Pensa em retribuir as gentilezas, mas para sempre com a mão na porta. Sempre parou. Mas tenta. O chuveiro tá frio e ainda tem conta de luz pra pagar hoje. Tem fila do supermercado pra enfrentar. Tem uma multidão lá fora pra esbarrar, mas não sabe ser gentil. Tropeça nos cadarços que nunca aprendeu a amarrar. Derruba todos eles. Um strike desajeitado e inconveniente. Sempre foi assim, com seus erros cumulativos. Bola de neve com destruição ambulante. Cada vez maior o montante, sem nenhuma subtração que amenizasse o peso e trouxesse aprendizado. Numa roda gigante de um círculo vicioso. E tem medo quando chega ao alto. Mas tenta.
Deixa tudo de lado. Já não tem mais medo de altura. E pula. Machuca os dois braços – só que não tem mais marca de cigarro neles. Não tem mais bituca pela sala e a fumaça que sai da cabeça já não é mais cinza. Deixou de usar a chama artificial pra acender os próprios desejos. E jura que todo homem precisa de um vício pra se manter vivo. Algo que corrompa e que não possa ser regenerado facilmente. Um purgatório opcional. Pra se sentir humano. Sentir que faz parte de alguma coisa como a Terra. Pra acreditar que tem algo sob os pés antes de desabar. Na verdade, não acredita em nada disso e só vive por aí porque não sabe desistir. Mas tenta. Sempre tentou.
Resta um. E já não sabe mais se o caminho certo é o da esquerda, o da direita ou nenhum deles. Pensa em retribuir as gentilezas, e é isso que corta seu coração – porque não tem gentileza pra retribuir. Pensa em pintar uns quadros e logo vê que a tendência repetitiva não vai levar a lugar nenhum. Decora uns livros e pede socos invisíveis no estômago pra ver se sente alguma coisa. Não sente. Resolve sair de casa pra sentir, mas para sempre com a mão na porta. Sempre parou. Mas ainda tenta.


Texto original: Daniel Bovolento - Pra sentir alguma coisa.
Daniel Oliveira, que atende pelo pseudônimo Daniel Bovolento, se divide sempre entre a primeira e a terceira pessoa. Um carioca egocêntrico, que além de um ótimo escritor, parece entender tudo sobre os mais profundos sentimentos. Seu blog, Entre Todas as Coisas, abrange desde a mais platônica das paixões até o mais forte dos amores.

19 abril 2013

O "Para Sempre" Acabou


"Para sempre" é muito tempo. Eu acreditava na incrível história do "para sempre". Cheguei a acreditar em contos de fada, textos românticos e fofinhos, acreditar que todas as pessoas que eu julgo importantes estariam ao meu lado nos momentos mais difíceis.
Mas essa é a dura realidade que eu não tenho outra escolha a não ser aceitar: uma hora ou outra, as pessoas se vão. Família, amigos, amores. Uma hora, todos ficam indiferentes e frios.
Dos abraços apertados e beijos apaixonados, até mesmo das longas conversas por telefone até altas horas da noite... Disso tudo, sobram apenas lembranças.
As piadas, motivos de briga, músicas especiais, sonhos... Tudo isso simplesmente se foi, não faz mais sentido agora.
Quem sabe se a intuição tivesse falado mais alto, talvez, só talvez, seria mais fácil me remediar antes mesmo de me machucar.
Me remediar antes do "para sempre" acabar.


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